terça-feira, 6 de março de 2007

talvez só mais um ponto de vista


Entrevista com um homem com um saco de papel na cabeça*

– Este é um homem com um saco de papel na cabeça. Boa tarde.

– Boa tarde.

– Por que o senhor está com um saco na cabeça?

– Porque não há maneira melhor de ver a realidade.

– Como assim? Do meu ponto de vista, o senhor não está vendo nada.

– Aí é que você se engana. Do meu ponto de vista, eu vejo tudo.

– Mas o senhor está com um saco de papel enfiado na cabeça!

– Por isso mesmo. O problema é que você não está com um saco de papel enfiado na cabeça, então acha que está vendo muita coisa.

– E o senhor, afinal, o que vê?

– Eu vejo todas as coisas. O esquema geral. Nessa ranhura do papel aqui, por exemplo, acabo de encontrar a explicação para a solidão e a melancolia. E nessa dobradura repousa a solução para o aquecimento da atmosfera. Alguém rabiscou a caneta no outro lado do papel e do lado de cá aparece uma equação. São assuntos variados, como você pode notar. Há muito mais em cada pedaço amassado.

– É difícil de acreditar quando se sabe que é só papel.

– Difiícil mesmo é acreditar que se trata só de papel.

– E o senhor pretende ficar muito tempo assim?

– Estou decidido a nunca mais tirar esse saco de papel da cabeça.

– Vai viver assim? E quanto ao mundo em volta? Como o senhor fará para andar pela rua?

– Não pretendo mais me aventurar à rua. Quanto ao mundo em volta, está tudo aqui no saco de papel. Não preciso de nenhum outro.

– Isso soa um tanto esquisito. O senhor obviamente está inventando essas coisas.

– Só porque interpreto o que vejo? Os nossos olhos fazem isso o tempo todo, enviando mensagens ao cérebro, que só então montam o que estamos vendo. O que nós chamamos de realidade não passa de interpretação. Sabia que as coisas podem ser diferente para cada um de nós? O senhor, por exemplo, pode ser azul.

– Esse é o problema. O senhor não vê nada, pois tem um saco de papel enfiado na cabeça.

– Eu soaria melhor se tirasse o saco?

– Não pareceria louco, pelo menos.

– Mas o que importa? O que eu falo ou o saco que está na minha cabeça?

– Os dois.

– Vê como isso não faz sentido? Vamos fazer uma coisa. Tome aqui o saco. Pronto. Tirei. Está satisfeito? Agora ponha-o você na cabeça. Aqui está. Está vendo?

– É mesmo fantástico. Tudo isso para ver. Não podia imaginar.

– Entende o que eu quero dizer?

– Por certo que sim. Não há visão mais clara do que essa. Estou desconcertado. Quantas novidades. Como pode...

– Que bom. Agora me dê o saco de volta.

– Não.

– Como?

– Não vou devolver. Não vou tirar nunca mais esse saco da cabeça.

– Isso é impossivel.

– Por que?

– Esse saco é de papel. Logo vai ficar velho e se desfazer. Vai rasgar. Vai se molhar e ficar cheio de buracos. O papel é frágil e esse é um saco ordinário. Em pouco tempo não vai servir para nada. O mundo exterior vai cegar seus olhos entrando pelas frestas e você não poderá mais perceber o que há nele.

– Você não falou nada disso antes.

– É verdade, mas não tinha sido preciso até agora.

– E como fará então?

– Vai ter que esperar para saber. Agora me dê o saco de papel de volta. Não resista. Isso. Obrigado. Estou bem melhor agora.

– É esquisito olhar o mundo. É tão brilhante, mas ao mesmo tempo o brilho parece falso. Falta alguma coisa.

– Falta um saco de papel na sua cabeça.

O homem com um saco de papel na cabeça não me levou até a porta, apenas se sentou diante da janela. O céu estava nublado. A claridade vinda do exterior era pouca para livrar o ambiente da semi-penumbra. Apesar disso, as luzes estavam apagadas. Era um escritório comum. Tinha uma pequena estante com clássicos de bancas de revista. Ele, imóvel como se imaginasse a paisagem em frente, parecia muito digno e confortável.


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